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Publicado em: 05/02/2018 às 14h20

Mais de 20 anos depois, rapaz relata abuso sexual da infância para apoiar outras vítimas

Intenção de Marcus é que sua coragem incentive pessoas a superar traumas e buscar Justiça


- Top Midia News

Foto: Divulgação

Mais de 20 anos depois, rapaz relata abuso sexual da infância para apoiar outras vítimas

Aos sete anos de idade, um episódio mudou a vida de Marcus Carnero. Hoje com 30, bem longe do lugar onde tudo aconteceu, ele enche o peito de coragem e os olhos de lágrimas para relatar, em vídeo publicado no YouTube, o abuso sexual cometido contra ele quando era criança.

 

Formado em moda em Campo Grande e vivendo há dois anos em Madri, na Espanha, ele passou a infância em Jardim, interior de Mato Grosso do Sul, onde o abuso ocorreu. No vídeo, ele relembra os motivos por trás de uma infância e juventude reclusa, de tristeza e traumas que nem sabia os reais motivos.

 

A memória antes fragmentada se tornou mais clara apenas recentemente, quando Marcus realizou uma cirurgia de um problema físico causado pelo episódio de pedofilia que sofreu. Na realidade, o que era apontado com inúmeros diagnósticos hipotéticos durante idas a médicos foi causado pela crueldade de dois vizinhos adolescentes.

 

A motivação maior de dividir a triste história é ajudar a quem, como ele, foi vítima e escolheu o silêncio, por uma série de medos e tabus. “Quero ser ouvido, porque isso não é só comigo. Pessoas me agradeceram, me ajudam, pra mim é uma libertação todo mundo ficar sabendo, não é uma vergonha”, diz.

 

Aos poucos

 

Até alguns dias, conta, a lembrança confusa dizia que na época sua mãe havia pedido para guardar segredo sobre o que aconteceu, esconder sua roupa íntima com marcas de sangue e engolir o choro. Cresceu com ideia de que havia passado por uma humilhação e que a punição era apenas para si.

 

Ele tinha uma vaga recordação de que familiares tentaram acudi-lo no dia, mas ao falar com a mãe as respostas foram surgindo. “Liguei pra minha mãe e questionei o caso com os dois vizinhos. Aí veio tudo na memória. Aconteceu uma briga de criança no vizinho, foi meu pai que me socorreu e, por vergonha, pela cidade ser pequena, pediu segredo”.

 

O pai já faleceu e para a mãe Marlene, que sempre apoiou os filhos e os protegeu, o relato atingiu como um choque. “Pra mim foi uma surpresa muito grande, quem sabia escondeu de mim todo esse tempo. Chorei muito, tenho um sentimento de injustiça, traição e desprezo por quem fez isso. Me recordo que ele sempre foi muito recluso e o pai dele era muito agressivo, ele tinha medo”, lamenta, afirmando apoiar a iniciativa do filho em encorajar outras vítimas.

 

Agora com algumas respostas, ele finaliza a mensagem que gravou. “Faço esse vídeo pra me livrar dessa história, pra dizer pra você que sofreu algum tipo de abuso, não permitir. As pessoas não entendem, tem preconceito, por eu ser gay. Mas eu era uma criança, tiraram minha inocência. Eu perdoo. Meu pai, quem me estuprou. Antes eu não me permitia ver a pessoa maravilhosa que eu sou, dentro de mim existe um artista maravilhoso que nunca acreditei. Mas nunca é tarde”. Veja o vídeo