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Sobrevivente de guerra, mais velha campeã olímpica ainda viva completa 100 anos

Agnes Keleti usou identidade falsa para fugir dos nazistas e pediu asilo político quando soviéticos oprimiram a Hungria. Livro guarda a memória de quem pouco se lembra das próprias conquistas

| GLOBO ESPORTE


Agnes Keleti mostra flexibilidade e é aplaudida por pequenas ginastas em visita a centro de treinamento em Budapeste em 2016 — Foto: AFP
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As rugas que emolduram o sorriso entregam a experiência desta senhorinha. Mas a elasticidade e a disposição impressionam mesmo quem conhece a trajetória de resiliência para sobreviver ao terror do nazismo e de realização esportiva ao subir ao pódio 10 vezes em duas edições dos Jogos.
 

Esta é a história da ex-ginasta Agnes Keleti, campeã olímpica mais velha ainda viva e que comemora 100 anos neste sábado.
 

Keleti nasceu em Budapeste em 9 de janeiro de 1921. Começou a praticar ginástica aos seis anos de idade. Passou a levar o esporte mais a sério aos 16, e quando se tornou um nome promissor para o esporte do país veio a Segunda Guerra Mundial. As duas Olimpíadas seguidas canceladas, no entanto, foram o menor dos problemas de quem teve se virar para escapar do domínio da Alemanha de Hitler na Europa.


Judia, Keleti migrou para uma zona rural e assumiu temporariamente uma identidade falsa de uma governanta cristã chamada Piroska Juhasz. Trabalhou como empregada doméstica e depois em uma fábrica. Acreditando em um rumor sobre mulheres casadas não serem detidas, uniu-se ao também ginasta István Sárkány, atleta olímpico em Berlim 1936. Os dois se separariam após a Guerra.
 
A irmã e a mãe de Keleti escaparam com a ajuda de um diplomata sueco. O pai e os tios não tiveram a mesma sorte. Integraram listas com mais de 550 mil nomes de judeus húngaros assassinados em campos de concentração.


Passados os anos de medo e de luta pela sobrevivência, Keleti retomou a carreira de atleta. Conseguiu acumular títulos nacionais, superou uma lesão que a tirou dos primeiros Jogos do Pós-Guerra, em Londres 1948, e em Helsinque 1952, aos 31 anos, finalmente fez sua estreia olímpica. Não só competiu como conquistou quatro medalhas: dois bronzes, uma prata e um ouro no solo, a prova favorita dela.

 

Quatro anos depois, aos 35 anos, foi além. Em Melbourne 1956 conquistou seis pódios, quatro ouros. Além do bicampeonato no solo foi campeã também na trave, nas barras assimétricas e na disputa por equipes de aparelhos portáteis, modalidade que seria o embrião da ginástica rítmica.


Mais do que a consagração esportiva, a competição na Austrália foi a porta para uma enorme mudança de vida. Aquela edição das Olimpíadas ocorreu de 22 de novembro a 8 de dezembro, no verão do hemisfério sul. Enquanto a delegação húngara viajava para a Oceania, o país era palco de um levante popular seguido de uma dura repressão da União Soviética. Milhares de húngaros morreram e mais ainda tornaram-se refugiados.
 
Terminada a competição, 44 atletas húngaros decidiram permanecer na Austrália e receberam asilo político. Quando finalmente foi embora, mais de um ano depois, Keleti decidiu viver em Israel. A mãe e a irmã se juntaram a ela, posteriormente. Lá a ginasta se casou, teve dois filhos e trabalhou como técnica e professora de educação física.

 

A primeira visita ao país natal após a mudança foi nos anos 1980. A Hungria ainda vivia sob o regime comunista, e Keleti retornou a Israel. Em 2015, aos 94 anos, decidiu que era tempo de retornar de vez a Budapeste.
Keleti hoje evita maiores esforços, mas vira e mexe contraria as orientações médicas e exibe sua elasticidade. Em entrevista à agência AFP em novembro de 2020, mostrou que o bom humor segue intacto.

 

Para comemorar o centenário de Keleti, a Federação Húngara de Ginástica lança agora em janeiro o livro “Keleti 100 - Por que eu amo a vida”. O material é rico em registros raros, com mais de 300 fotografias e entrevistas com atletas, amigos e familiares.
O registro tem grande valor porque infelizmente Keleti, apesar de fisicamente estar muito bem para a idade, sofre com outros efeitos naturais em uma vida tão longa. Na entrevista para o COI, gravada em vídeo para arquivo do Museu Olímpico, fica claro que a memória está bastante prejudicada e, dependendo do dia, pode ser difícil extrair lembranças sobre seu passado no esporte.

 

A húngara também tem limitação da audição. Quando não entende o inglês, idioma que dominava, conversa de forma bem mais fluente em húngaro com quem a auxilia como tradutor. Frequentemente repete informações, como o fato de ter sido violoncelista, solfejando feliz uma das melodias que embalou suas apresentações.
Curiosamente, uma das respostas mais fluidas desta entrevista ao COI, apesar de ainda curta, foi sobre a ginástica atual. Perguntada se considera o esporte hoje mais perigoso do que em sua época de atleta, ela responde de forma categórica.


- Não acho mais perigoso se forem fortes o bastante. O treinador sabe o que é possível ensiná-las.



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