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Bicampeã olímpica central saiu de cena para dar espaço ao sonho de ser mãe

| GLOBO ESPORTE


Foto: Divulgação
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Nos últimos meses, a rotina tem sido quase sempre a mesma. Fabiana se levanta ao acordar e finca os pés em frente ao espelho do quarto. Faz movimentos suaves, de um lado para o outro, apalpa e estufa uma barriga que cisma em aparecer aos poucos, sem pressa. Se o corpo ainda não revela de forma tão óbvia, o sorriso entrega que os dias ganharam um novo sentido na vida da mineira de 35 anos. Até aquele exame, enfim, dar positivo, os planos eram outros. Fabiana ainda pensava em ocupar um espaço na lista de convocadas para as Olimpíadas de Tóquio, adiadas para julho deste ano. Há quatro meses, porém, a jogadora saiu de cena para dar lugar ao posto que mais sonhava: o de ser mãe.

 

Bicampeã olímpica, Fabiana já ensaiava a mudança de chave há alguns anos. Faltava, no entanto, a certeza de ser o melhor momento. Até ver a pandemia de coronavírus adiar aquela que poderia ser sua quinta Olimpíada para 2021. Ali, já não havia mais dúvida. Ainda que o amor pelo vôlei a empurrasse em direção às quadras, o esporte não era mais prioridade. Em meio ao caos de um mundo em quarentena, Fabiana se viu tranquila e feliz. Nesta entrevista ao ge, uma das maiores jogadoras de sua geração fala sobre maternidade em meio à pandemia, a incerteza da volta ao esporte e a briga para dar ainda mais voz aos atletas diante do racismo e do descaso social.

 

MATERNIDADE NA PANDEMIA
Eu estou muito feliz. Às vezes, é até difícil achar palavras para descrever o que eu estou vivendo. A minha cabeça estava um pouco nos Jogos Olímpicos, aquela coisa toda envolvida com o vôlei, de tentar conseguir uma vaga nas Olimpíadas. Mas, com todo o adiamento, com tudo o que aconteceu, foi a melhor solução para todos nós. Eu já tinha esse desejo de ser mãe. Vi que era a grande oportunidade de conseguir realizar esse sonho. Conversei muito com a minha família, com meu esposo (o cantor Vinigram). E, graças a Deus, deu tudo certo.

 

Está acontecendo exatamente da mesma maneira que a gente pensou. Então eu fico muito feliz de realizar esse sonho. Sempre tive em mente esse sonho de ser mãe, de ter filhos, de estar mais próximo ao meu esposo, de realmente viver como uma família. Com essa nossa correria toda, só conseguimos viver como casal mesmo no ano retrasado, quando fomos para o Japão. Porque a vida dele também é corrida. A gente se via mais no fim de semana. Graças a Deus, as coisas se encaixaram no meio dessa pandemia toda.

 

Para mim, muita coisa já mudou, esse sentimento de saber que tem um novo ser ali dentro de você. É uma felicidade muito grande de acordar, olhar no espelho e ver se a barriga está crescendo. Dar aquela estufada, né, porque a barriga ainda está demorando um pouco para aparecer. Ficar vendo o quartinho, olhando roupa. Cada detalhe está sendo... não sei te dizer. É uma felicidade muito grande.

 

ISOLADA, MAS MAIS PRÓXIMA
Por mais que eu entenda o momento, eu fico um pouco presa, né? Eu estou mais dentro de casa, evito sair para alguns lugares. Máximo que eu faço é ir à casa da família do meu esposo, que é aqui do lado, e volto novamente. Basicamente, estou desde quando voltei (do Japão) dentro de casa. Ainda mais estando grávida, conversei muito com a minha médica, ela sempre me diz para ficar atenta e me cuidar. Passei o Natal em casa, longe da família, com o coração apertado.

 

O que eu fiquei mais atenta mesmo foi estar mais próxima das pessoas. A minha vida sempre foi muito corrida, desde os 13 anos. Sempre seleção, clube, viagem atrás de viagem. Fui me distanciando pelo esporte. Então, nesse momento, eu queria estar próxima de todo mundo, mas não podia, por conta da pandemia. Estou conseguindo aproveitar a gravidez, curtindo o casamento. Não tem sido aquela correria de voltar a jogar. Estou curtindo cada segundo. Até quando passo mal, eu penso: “Nossa, estou sentindo isso”. Porque às vezes passa despercebido. Atleta é assim, você veste aquela capa de que é forte e vai embora. Estou conseguindo viver isso, estar mais próxima, mesmo que não seja fisicamente. Estou conseguindo ligar, ficar um bom tempo com eles conversando. Era sempre: “Ah, tenho que treinar, estou chegando no jogo”.

 

VOLTA ÀS QUADRAS
Hoje, estou me dando um dia de cada vez. Eu não quero dizer não, mas também não quero dizer sim. Eu quero aproveitar cada momento. Eu quero muito (voltar a jogar). Eu sou apaixonada por voleibol, eu amo estar em quadra, amo estar junta com as minhas amigas. Fico assistindo à Superliga, fico morrendo de saudade, acompanho todos os jogos. Mas eu quero viver um momento de cada vez para ver como vai ser. Ver como vai ser quando chegar o bebê, qual vai ser a minha reação no dia a dia. Se eu vou conseguir voltar, se não vou. Não quero criar expectativas. Mas que eu sou apaixonada por voleibol, ninguém precisa ter dúvidas.

 

VIDA APÓS APOSENTADORIA
Eu achei muito legal quando a Ana Flávia (bronze com a seleção nos Jogos de Atlanta, em 1996) me chamou para fazer parte da equipe. Falei que queria, sim, entrar, para agregar em algumas coisas, para ver de uma outra forma. Porque eu acho a nossa base meio carente. Eu acho que precisa de um pouco mais de atenção. Essas meninas mais novas, elas vêm um pouquinho perdidas ainda. Querendo ou não, elas já têm noção de aonde podem chegar. Só que essa noção vem muito cedo. Fica um pouco daquela coisa perdida, elas precisam um pouco de apoio. Quando eu topei essa ideia, não foi só ser empresária, negociar, fechar contrato. Até falei que deixava essa parte para ela. O que eu quero mesmo é ajudar essas meninas a chegarem de uma outra forma, passar a minha experiência a elas, dentro e fora de quadra. Essa parte de estrutura familiar, que tem de vir desde o início. Para você conseguir parar de uma forma mais tranquila, porque todo mundo sabe que vida de atleta é muito curta. A gente precisa, realmente, ter um planejamento em cima disso.

 

E eu sou uma grande experiência dentro da empresa da Ana Flávia. Eu comecei desde os 15 anos, passei por todo esse processo. Confiei no trabalho deles e deu tudo certo. Meu trabalho vai ser esse. Ficar perto das meninas para que elas entendam que primeiro você tem de amar o que você faz, tem de vestir a camisa. Por trás, depois, as coisas vão acontecendo. Muitas vezes, muito atleta diz que quer ganhar isso, aquilo e esquece do principal. Meu intuito é mais esse, estar do lado.

 

 

VÔLEI EM MEIO À PANDEMIA
É uma coisa que me preocupa muito. E é a minha opinião. Acho, sim, que o voleibol deveria ter voltado, mas de uma outra forma. Talvez em formato de bolha. Os atletas ficam muito expostos. Na Superliga, a maioria joga duas vezes por semana. Um exemplo. Você está viajando para Brasília. Sai e precisa ir para Belo Horizonte. O atleta está sendo muito exposto. Todo esse caminho, toda essa trajetória, por mais que, no clube, você esteja tomando todas as medidas, depois ele está viajando, pegando avião, indo de um lado para o outro. Se for de ônibus, em sete, oito horas, se tiver uma pessoa contaminada, pode contaminar o time inteiro.

 

Eles fazem o protocolo a cada 15 dias, mas é muito longo, é muito comprido. Dentro desses 15 dias, o atleta pode se contaminar. Foi o caso da Tandara. Ela teve dentro da família, fez o teste e deu positivo. Pela CBV, ela estaria apta. Será que realmente todo mundo está tendo essa consciência? Será que os times estão “ah, não, a gente precisa ganhar, não está tão mal assim”. Mas você está colocando todo mundo em risco. Outros times, como o Sesc-Flamengo, tiram todo mundo, não tem time para jogar. Cada um está lidando de uma forma, e isso é muito preocupante. Nessa hora, você não tem que pensar em jogar, ganhar, cumprir tabela. Tem que pensar na saúde, na vida dos atletas.


DIFICULDADES RUMO A TÓQUIO
Eu acho que vai ter uma dificuldade grande. Já ficou um ano sem jogar. E essa Superliga, algumas atletas contaminadas, ficam sem jogar, depois voltam. Isso prejudica. Porque o Zé (Roberto Guimarães) vai ter de ter uma base pelo que vê na Superliga. E se a Superliga continuar nesse ritmo, quando chegar lá na frente, vai ter que juntar dois meses, três meses, para poder disputar uma Olimpíada. A gente sabe que é um risco. Não sabemos como vai ser, não sabemos como vai ser o sistema de disputa das Olimpíadas, porque eu acredito que vá mudar, mesmo com a vacina. Vai ser difícil, vai ser bem complicado.

 

Acho que estamos vindo num momento com uma evolução muito grande. Infelizmente, fomos pegos com essa pandemia. Mas acho que tivemos grandes nomes. Não temos nada definido. O sistema de jogos nas Olimpíadas é bem puxado, dia sim, dia não. Então você precisa de uma equipe fechada.

 

Vai depender muito de como for a Superliga. Você vê a Mayany indo muito bem, a Thaisa, a Ana Cristina. Querendo ou não, está muito perto. Zé Roberto vai precisar de jogadoras novas, mas também de jogadoras mais experientes. Eu acho que muita coisa vai acontecer. Mas temos grandes chances. Acredito muito no time do Brasil. Temos grupo, união. E a gente sabe que, quando junta ali, o time fechado, sabemos que é difícil, podemos brigar com qualquer equipe.

 

Eu estou com um grande ouro, uma grande medalha dentro de mim. Mas com certeza vou assistir, apoiar. Tenho um grande ciclo de amizades. Não vou estar presente em corpo, mas vou apoiar o tempo inteiro. Nem que seja com uma palavra de apoio.


SELEÇÃO SEM ZÉ ROBERTO
É difícil não vê-lo na seleção. É um grande campeão, um grande técnico, eu cresci muito com ele. Principalmente quando fui capitã. Ele me fez crescer, enxergar coisas que eu não tinha noção. E como jogadora. Cresci muito do lado dele com grandes oportunidades, grandes ensinamentos. Vai ficar um vazio na seleção. Mas a gente sabe que esse momento já iria acontecer. O Zé já vem falando sobre isso há alguns anos, ele quer curtir mais a família dele, o Zé é outro que é apaixonado, encantado com o vôlei. Fica um grande vazio. Vai precisar de uma renovação. Sinceramente, hoje não consigo dar um nome que vá substituir à altura. Tem grandes processos, vai precisar dessa renovação. Mas vai ficar um vazio.

 

UNIÃO NO VÔLEI
Acho que tem muito a melhorar. O masculino, eu vejo, é mais unido que o feminino. Acho que hoje o feminino consegue se juntar mais, levantar sua voz mais do que antes. O masculino sempre teve esse papel. No masculino, eles sempre foram mais unidos, brigaram por um objetivo em comum. E o feminino, não. Hoje está sendo diferente. Estamos tendo mais voz. Seja através das redes sociais, em telefonemas, em uma reunião com CBV ou clubes. Estamos tendo uma voz que as pessoas estão ouvindo. Antes, éramos mais ignoradas que qualquer coisa. Hoje estamos conseguindo ter essa voz.
A VOZ DOS ATLETAS
O atleta precisa entender a importância de se colocar. A gente sempre teve um ensinamento que, lá atrás, foi ruim. Não que o atleta não precise pensar nessas coisas, mas antes tinha de se calar em certas situações porque não poderiam ser legal para patrocinador, para os clubes.

 

E o atleta tinha que se calar. Mas, agora, as pessoas estão pensando: “Pera aí, está mexendo comigo, ou com alguém do lado, ou está falando algo que eu preciso me posicionar. Porque está acontecendo demais, está passando dos limites. Eu acho que todo mundo está com essa cabeça, essa mente. Já está falando, escrevendo sobre determinado assunto, ou sobre algo racial. O atleta está entendendo que ele, sim, é uma voz. Que ele pode, sim, se colocar. Antes, não podia falar, podia perder um patrocínio. Acho que está todo mundo com essa consciência.


RACISMO NO ESPORTE
Tem de ser um crescimento da sociedade como um todo. Sempre foi aquela coisa: “Ah, dentro do esporte não acontece racismo”. Só que, agora, está sendo gravado, está sendo mostrado que realmente existe. Sempre tem esse lado. Acontecia, mas ficava calado, ninguém queria se expor. Mas está sendo gravado, está sendo exposto. E precisa ser dito. Isso precisa ser mostrado para que todo mundo tenha consciência.


Em um jogo contra o Minas, começou a me chamar de macaca. Começou a gritar: “Joga banana para a macaca, tira a macaca de quadra”. Foi o ato mais direto comigo. Sem contar os pequenos detalhes que acontecem no dia a dia. Era uma coisa que a gente se calava. Mas sempre acontecia. Infelizmente, é muito triste. Mas acontece. Como tem acontecido, como aconteceu lá atrás com o (ginasta) Ângelo Assumpção e houve uma tentativa de silenciar. Tentaram contornar da “melhor forma”. São coisas que vão acontecendo.


RENOVAÇÃO
Sem dúvida, a Ana Cristina é uma menina que enche os olhos, pela idade, como está se comportando. Tem muito a evoluir, muito a crescer. Mas a gente sabe que está no caminho certo. Mas é o grande nome para o futuro do nosso vôlei brasileiro. Eu queria, de verdade, poder citar mais nomes, porque eu sei o quanto vai ser importante. Mas a gente vê que várias meninas ainda estão vindo. A gente precisa muito trabalhar essa base, precisa muito que tenha mais nomes. A gente precisa não só de uma Ana Cristina, mas de várias.

 

Quando estou em Saquarema, e eu gosto de assistir, vejo a categoria de base. Mas a gente sabe que precisa de um tempo, precisa ser trabalhado. Às vezes, na categoria de base, por querer ganhar, pegam as mais baixas, mais habilidosas, e deixam as mais altas para trás. Mas são essas mais altas que vão fazer a diferença. É o que você vê da Ana Cristina. Às vezes você pode ter uma mais alta coordenada, em outras não. Eu sou prova viva disso.

 

Eu, a Thaisa. A gente não sabia nada. Mas tiveram essa paciência. Então, precisamos resgatar um pouco isso, pensar mais no futuro. Talvez aquela menina vá resolver a situação ali no começo, mas lá na frente, não. Precisa trabalhar isso. Você vê essa renovação na China, Sérvia, Turquia. Todo mundo passando por essa renovação. Precisamos também.

 



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