Jardineiro transforma barraco em palácio, com madeira e tintas que achou no lixo


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E é no meio dos barracos do Jardim Noroeste, próximo aolixo, que surge a cena: uma fachada de tábua de madeira pintada à mão, comdireito a jardim, carro de boi e até mesinha com cobertura. A placa penduradano portal indica o artista que ali mora: Joaquim Jardineiro: 9211-28379614-1768. No primeiro contato, ele diz que a gente pode se achegar queagora ele está em casa, na própria, fazendo \"paisagismo\".


Seu Joaquim jardineiro tem 56 anos e o sobrenome Soaresda Silva. De sorriso largo, é fácil arrancar dele uma gargalhada. E a gente queestá perto também se contagia e ri junto. Esta é uma das pautas que daria umasérie, \"eu amo as pessoas\" e do quanto as melhores histórias estão evem delas.


\"Eu aprendi sozinho, assim, olhando e copiando. Nuncative escola não\", explica sobre a profissão de jardineiro. Jásobre a pintura, ele diz que aprendeu com um colega que trabalhou junto.\"Ele fazia vaso de cimento, eu também faço, era ir olhando e copiando. Masmeu sonho mesmo era gravar um CD. Deus me deu um dom muito bonito paramim\", revela.


Tem mais de ano que ele ocupa um dos barracos no JardimNoroeste, mais exatamente na Rua Acuri. No entanto, a casa dele não pode serchamada assim. Seria desqualificar o trabalho braçal de oito meses. Enquantosaía de casas chiques, seu Joaquim Jardineiro voltava para a lida, de erguer aprópria moradia.


\"Eu que fiz essa casa. Foi tirado tudo do \\'buraco\\'. Étudo de lá, a madeira eu juntava e trazia no carrinho de mão\". As frasessaem com tanto orgulho como se ele apresentasse um palácio. Para ele talvezseja a casa mais bonita que já viu, feita a partir do que ele retira do lixovizinho.


A varanda é encantadora. Tem plantas para todo lado,cadeiras para se sentar e conversar e até um guarda-sol, quem sabe uma imitaçãodaqueles que ele vê ao redor das piscinas. \"Tem banheiro dentro de casa ede visita\", apresenta. Na verdade, se trata de uma suíte, um quarto grandeseguido de banheiro. A cozinha é bem maior que a do meu apartamento, a salaguarda uma televisão, um sofá e o bem mais precioso da casa: o violão, em cimado armário.


Quando pergunto se ali se vive sozinho, seu Joaquimresponde: \"sozinho sim, eu tinha mulher, mas ela foi embora\" e maisque depressa aparece \\'Like\\', a cadela que lhe faz companhia. No anseio deconhecer a casa, acabei não lhe perguntando a grafia do nome. Fica assim \\'Like\\'e se não for, de antemão, peço desculpas.


\"Aqui era só chão. Eu que aterrei e fiz o piso, trouxea cozinha para cá. Peguei o nível certinho. Ela é bem grandinha, deve ter uns,espera aí\" e dispara a contar por passos quantos metros a casa tem. Chegaa um resultado: 10x8. A varanda tem lírio da paz, beijo, pingo de ouro, bico deperiquito, gerânios e mais um monte de flores e plantinhas. Ao lado, ficam osinstrumentos de trabalho, as ferramentas que vão e voltam do Noroeste com ele,de bicicleta. \"O dia que tem serviço, tem. O dia que não tem, nãotem\".

Nascido em Dourados, seu Joaquim chegou a formar a dupla\"Campeão e Vencedor\" com o irmão já falecido, \"finado Zé\",como ele diz. Os dois tocavam em circos montados pelo Estado, mas pararamdevido à saúde doirmão. E antes mesmo que a gente peça qualquer \\'palhinha\\', ele começa a afinaro violão.


\"Vou tocar \\'Sereia\\' do Zé Rico, mas olha, eu não sei sevair sair bonito para vocês porque eu não ensaiei não\", avisa. A voz e odedilhado no violão arrancam nossos aplausos. \"Eu tinha o sonho de sercantor de mostrar minhas composições\", desabafa.


E nem aí ele fica triste. Acho até que tristeza não tem veze nem voz naquela casa. Pergunto afinal: para quem ele fez tudo aquilo?\"Para mim e os amigos que chegam em casa. Eu gosto de coisa bonita.Dá para fazer sem ter muito dinheiro. Eu sou feliz aqui\", ensina. 


A fachada, que foi o que nos chamou atenção, acaba que servepara várias outras casas que estão ali, pelo corredor. A grama da frente, queele insiste em dizer que ainda não está toda prontinha, são as sobras dojardins que ele vem fazendo.


A tinta das tábuas de madeira também são do \\'buraco\\'. Quandoquestiono se são mesmo, ele confirma dizendo que algumas teve de comprar, masque eu não posso imaginar o que \\'cai\\' lá dentro. 


Já são dois meses trabalhando no paisagismo da fachada. Masisso ele explica que é porque não pode correr \\'direto\\', precisa sair etrabalhar. \"Primeiro é tudo de branco, aí deixa secar bem, jogasegunda mão e na terceira vai desenhando\", descreve.


O desenho começa do lado esquerdo, na ponta, a partir darua. \"Ela vem de lá para cá, essa estrada aqui\", sinaliza. A ponteque a gente vê é uma cópia da imagem gravada na memória de seu Joaquim.\"Eu copiei daquela que passa para ir pra São Paulo, sabe? Aí aquitem mato, pedra, rio. 


Aqui é o céu, tem ipê roxo. Esse outro não deuflor ainda, porque não é a época\". Na criatividade do jardineiro, asflores só vão aparecer quando a temporada mandar. O que nascer na cidade,também se abrirá ali, na humilde fachada do Noroeste.


A cabeça de leão, imagino eu, que seja a parte de uma fonte,também descartada. \"É essas coisas que eles põem de piscina sabe? A rodaaqui, eu fiz um carro de boi\", completa.


Diante de talento e esforço, pergunto o que faltou na vidado Joaquim jardineiro. \"Faltou pra mim foi estudo. Vivi na roça, setivesse estudo, quem sabe eu era alguma coisa na vida, mas tá bom. Hojeagradeço é pelo trabalho, eu tiro o chapéu para quem trabalha igualeu\". A gente também.


\"Aqui eu ainda quero por uma tela, fechar e plantarcoqueiro. Da próxima vez que você vier vai tá gramado até aqui\", avisa.Além da placa, peço para ele se posso colocar o número de telefone na matéria.Ele diz que eu estaria fazendo uma grande gentileza e que o anúncio ali, tambémé de grande valia. \"Tem muito freguês que me chama, porque já viu onde eumoro\", justifica. \"Faço jardim e paisagismo\", pontua. Também faza gente rir e sair feliz seu Joaquim jardineiro. 


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