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Publicado em: 08/03/2018 às 08h57

Do futebol à vida, todo dia é dia de exercitar o respeito

A convite do blog, as atacantes Cristiane e Andressa Alves e as técnicas Christiane Lessa e Emily Lima expõem suas visões em relação às diferentes lutas das mulheres


GE

Foto: Cíntia Barlem

Ela tinha um sonho. Entrar em um estádio cheio com torcida adversária e, ali, desfilar toda sua capacidade sem que, nem dos rivais, houvesse dúvidas sobre suas possibilidades, objetivos e desejos. O sonho, ou melhor, a realidade é encarada diariamente por mulheres nas mais diversas áreas. Elas vestem seu uniforme, suas chuteiras e, com a cobrança equivalente a um time inteiro, buscam avançar em seus ideais. A batalha é cercada de faltas, cartões amarelos e até vermelhos. Mas o que falta à mulher? Perguntarão alguns...

 

“Eu acredito que falta as pessoas acreditarem que temos a mesma capacidade ou mais do que os homens em poder devolver qualquer trabalho. Existe muita dúvida em relação ao o que somos capazes e isso atrapalha e não dá qualquer chance da mulher crescer como profissional”, Cristiane, atacante da seleção brasileira maior artilheira do futebol em Olimpíadas.

 

Falta a crença na capacidade. Nessa falta de crença vive o preconceito de definir funções de acordo com o gênero mesmo que “inconscientemente”. Nas arquibancadas durante os Jogos Olímpicos do Rio, uma menina segurava um cartaz no jogo da seleção feminina de futebol e nele estava escrito: “Lugar de mulher é onde ela quiser”. A frase não é apenas bonita. É necessária como alerta. Na fatia que cabe ao futebol, ela ainda é dita, mas nem sempre aplicada. Mulheres jogadoras, comentaristas, jornalistas lutam para que seu drible não seja comparado a um homem, sua opinião não seja classificada como boa ou ruim pelo simples fato de ser MULHER. Na hora dos julgamentos, o peso do feminino é um ítem na balança. Não deveria ser.

 

““Lugar de mulher é onde ela quiser”. Eu já ouvi essa frase e acredito que faz total sentindo tanto na vida como no futebol”, Andressa Alves, atacante do Barcelona e seleção brasileira.

 

Se o lugar é onde ela quiser, é preciso que esse lugar lhe esteja acessível. Não para que seja lhe dado de graça, mas que seja merecido por suas qualidades. O mundo do futebol ainda teima em encarar de frente e aceitar tais qualidades. Ele classifica não pela frase bem colocada, pelo chute na gaveta ou pelo esquema tático bem aplicado, mas por fatores ainda enrustidos na sociedade. Ouvi certa vez que o homem entendia mais de futebol por ter a convivência com ele desde pequeno, algo que as mulheres supostamente não teriam. Ora, é preciso passaporte para entrar nesse país chamado futebol? É preciso diploma? É preciso acima de tudo conhecimento, estudo e aplicação. Nisso, somos todos iguais.

 

‘’Eu quero ver as mulheres conseguindo ser diretoras de futebol em todos os clubes, fazendo curso de treinadoras com desconto dependendo do salário que ganharam e, se fazem trabalhos comunitários, que tenham condições de fazer de graça, mais médicas de futebol, mais fisioterapeutas, mais supervisoras, mais advogados no futebol, mais apresentadoras em jornais, mais narradoras, comentaristas, que tenham mais oportunidade em tudo relacionado ao esporte e principalmente ao futebol. Mais jogadoras de futevôlei, futsal, beach soccer, altinha, mais mulheres tomando conta dos comerciais de futebol mostrando a habilidade. Claro que terão que ter competência, mas também precisam ter mais oportunidades de mostrarem o que podem. Mais oportunidades de crescer, de trabalharem por isso. Mais mulheres seguindo as atitudes, simplicidade, dedicação e humildade de Marta e Formiga. Que as mulheres principalmente que fazem parte do futebol - sejam menos como a Hope Solo - e mais como a Thaísa (jogadora brasileira)", Christiane Lessa, brasileira e técnica do Avaldsnes, da Noruega.

 

Neste dia 8 de março, todas as atenções se voltam às mulheres. A data que reforça uma luta por mais igualdade deveria ser diária. Não apenas como um momento especial em meio a 365 dias. Homens e mulheres podem caminhar juntos, crescer juntos e trabalhar lado a lado com respeito. Inclusive de mulheres para com mulheres. As palavras não são utópicas, são reais. A evolução também pode ser.

 

"Resumiria em uma palavra. Acho que respeito. Em todas as áreas falta o respeito. Dos homens para as mulheres e às vezes das próprias mulheres. Eu refleti muito sobre tudo que eu venho vendo em todas as áreas, não só no esporte. Eu vejo o eu. Não vejo o nós. Não vejo o crescimento de nós mulheres juntas. Eu vejo uma querendo estar acima da outra também. Acho que o respeito no geral", Emily, técnica do Santos e ex-treinadora da seleção brasileira feminina.