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Publicado em: 10/03/2018 às 08h43

Torcedor gay do Palmeiras diz que sofreu ameaças de morte

William De Lucca pediu fim dos gritos homofóbicos contra o São Paulo e sofreu retaliações na web


- Band

Foto: Divulgação/Twitter

William De Lucca, torcedor do Palmeiras, sofreu ataques nas redes sociais

O Palmeiras manteve o tabu contra o São Paulo no Allianz Parque na noite da última quinta-feira, dia 8, venceu o rival por 2 a 0 e chegou ao sexto triunfo nos seis Choque-Reis disputados em sua nova arena, que foi inaugurada no final de 2014. William De Lucca era um dos 34 mil torcedores presentes no estádio. No entanto, nem tudo foi felicidade para esse palmeirense de 32 anos.

 

Perto do intervalo, ele utilizou sua conta no Twitter para pedir o fim dos gritos homofóbicos contra o São Paulo. “A torcida do Palmeiras, em sua homofobia típica, canta que ‘todo viado nessa terra é tricolor’. Parece que encontrei uma exceção à regra: eu mesmo, viado e palmeirense, e que cola no estádio em TODOS os jogos”, escreveu.

 

A mensagem viralizou nas redes sociais. Em contato com o Portal da Band, William revelou que recebeu apoio de torcedores de vários clubes, mas acabou atacado por aqueles que normalmente estão do lado dele cantando para incentivar o Palmeiras em campo.

 

“Os torcedores dos outros times foram muito receptivos, entendem que essa é uma luta de todos os clubes, é um problema que acontece em todas as torcidas. A torcida do Palmeiras foi a que gerou mais reações negativas. Falaram que eu não sou palmeirense, que quero usar o Palmeiras para aparecer. Teve até ameaça de morte, de violência”, revelou.

 

O jornalista admitiu que ficou um pouco assustado com essas mensagens, mas que vai tomar as providências cabíveis: “As ameaças que foram de agressões físicas, eu vou fazer um boletim de ocorrência para ficar resguardado, as outras só vou dar a atenção que elas merecem, que é nenhuma”.

 

Neste ano, William foi em todos os jogos da equipe treinada por Roger Machado em casa. Ele morou longe de São Paulo por um tempo, mas mesmo quando estava em João Pessoa, na Paraíba, e em Santa Catarina fazia de questão de marcar presença quando o Palmeiras jogava com algum time da região. O torcedor afirmou que nunca enfrentou problemas com a torcida dentro dos estádios.

 

“Não pareço ser gay, tenho o acaso de não ser tão afeminado, às vezes eu tenho uma passibilidade, posso ser lido como heterossexual, não tive caso contra mim, mas sei de outras pessoas que já foram ameaçadas, porque é um espaço homofóbico e intolerante”, explicou.

 

Mesmo com toda essa repercussão, William garante que vai continuar frequentando o Allianz Parque. “Medo acho que não tenho, receio sim. Mesmo que seja a bandeira da minha vida, não quero ser um mártir, morrer ou ser agredido por isso, quero trazer luz para esse sistema para que a gente tenha um espaço de futebol mais tolerante, eu vou continuar indo nos estádios”, comentou.

 

O jornalista costuma frequentar o estádio na companhia de amigos heterossexuais, que também ficam incomodados com a intolerância, e disse que pensa nos riscos que toda a comunidade LGBT vai sofrer nas arquibancadas.

 

“A solução parte de vários pontos diferentes: dos clubes, federações e torcidas. Hoje em dia precisa ter educação contra a homofobia, o clube fazendo ações educativas contra o racismo, por exemplo, e que as federações também façam, e punam os clubes que tenham comportamento homofóbico, como acontece nos casos de racismo”, sugeriu.

 

Após o nome de William aparecer na mídia, ele começou a ter as redes sociais investigadas pelos demais torcedores, que encontraram um tweet em que ele escreveu “chupa, bambi” em 2010.

 

“Estou lidando numa boa com isso. Eu e todas as pessoas do mundo podem deixar de pensar de forma intolerante. Mesmo sendo gay e intolerante, achava que era aceitável usar isso contra jogadores e torcedores de outros times. Mudei a percepção e passei de tratar de maneira diferente. Eles [tweets] nunca foram apagados porque mostram quem eu fui, o que eu falei. Fui homofóbico, é normal, crescemos em uma sociedade homofóbica e acabamos reproduzindo algumas coisas”, se defendeu.

 

Torcida organizada

 

A reportagem tentou contato com representantes da Mancha Alviverde. Oficialmente, a torcida organizada afirmou que não tinha nada a declarar, que não era a responsável por puxar os gritos e não quis comentar se faria algum tipo de ação para acabar como a homofobia.